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Humberto: PT é frágil no NE

Costa ainda está ressentido com ausência de Lula em 2012. (Foto: Maurício Ferry/Folha de Pernambuco)[/caption]

Coordenador de campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) no Nordeste, o senador Humberto Costa (PT) concedeu entrevista exclusiva à Folha, uma semana após as eleições. O senador defende que, por ter sido essencial na vitória da correligionária, o PT do Nordeste tem que ser tratado com mais atenção pela executiva nacional. “Nós queremos que o PT no Nordeste passe a ser importante”. Nesta entrevista, Costa se mostra ressentido com o ex-presidente Lula e lança críticas a Dilma pela falta de diálogo no primeiro Governo. O senador fala ainda sobre eleições 2018 no Estado, dissidentes, o futuro do partido e como deverá ser a relação Governo Federal com o Estadual.

A presidente Dilma se reelegeu com vitória esmagadora no Nordeste. Como está o PT na região hoje? Pela segunda vez o Nordeste dá a Dilma, dá ao PT, a vitória nessa eleição. A força que o PT tem no Nordeste, essa influência é uma coisa significativa, mas a estrutura do PT no Nordeste não corresponde a essa força. Então, na hora de compor, o Governo tem que olhar para isso. É preciso mostrar esse potencial em estrutura partidária concreta, forte. Nós ganhamos bem na Bahia, Ceará, Piauí. Em Pernambuco tivemos uma grande vitória. Em Alagoas, na Paraíba, Rio Grande do Norte, Maranhão tivemos uma grande vitória. Em todos esses estados o PT é frágil. Então, uma das coisas que a gente tem que cobrar do partido, cobrar de Lula, é que se a gente quer que essa força política continue a existir, nós precisamos estimular as lideranças, o partido no Nordeste.

Isso passa por que tipo de estímulo? Passa pela composição do governo, porque, se deixar, daqui a pouco vão pegar Jaques Wagner, botam de ministro e dizem: “O Nordeste está representado”. Não é isso. Jaques Wagner vai estar lá porque ele fez um grande governo, é forte, é um cara necessário ao Governo, um quadro de qualidade. Não é colocando ele lá que o PT vai dar ao Nordeste a representatividade que precisa para crescer. Então, essa é uma discussão que a gente tem que tratar dentro do partido. Nós queremos ter uma participação no governo. É priorizar. Por exemplo, as eleições de 2012, aqui no Recife, apesar de o partido ter acompanhado, não teve a mesma prioridade que São Paulo. Em São Paulo Lula definiu candidato, atendeu aos outros que queriam ser candidatos. Arrumou um espaço para cada um. Organizou alianças para a candidatura de Fernando Haddad e aqui foi deixado na mão de Eduardo para ele fazer o que ele bem quisesse. Terminou ele fazendo isso e o PT perdeu um espaço importante. Nós queremos que o PT no Nordeste passe a ser importante. Outra coisa é a participação dentro do Governo. Ou tendo ministro ou tendo dirigentes importantes de estatais. Nós temos que ter isso. Se o partido quer crescer no Nordeste, se o partido quer dar um retorno ao apoio que o Nordeste tem dado ao PT, tem que fazer isso. Não ficar com essa visão do PT paulista. Se dependesse de São Paulo agora, nós tínhamos perdido as eleições. E aí, vai ser um governo de novo cheio de paulistas? É uma coisa que acho importante.

E o PT no Congresso. Como o senhor avalia o desempenho do partido e a disputa pelo poder no Senado entre PT x PMDB? Acho que o PT precisa ter um papel de maior protagonismo no Senado. O PMDB tem a presidência do Senado, a presidente da Comissão de Legislação e Justiça, liderança do Governo. Na prática quem faz a política do Governo, defende a política do governo é o PT. Mas quem dialoga com a oposição é o PMDB. Muitas vezes dialogam no interesse deles, não no interesse do Governo. Então, nós temos que dar mais poder ao PT lá dentro do Senado para ele construir novas alianças. Temos que lutar pela presidência da Câmara. O PT tem que brigar. No caso do Senado, a gente tem uma situação diferente porque lá nós não somos a maior bancada. A maior bancada é o PMDB.

O senhor defende que a executiva nacional tem de dar mais importância ao PT no Nordeste. Disse que Lula faltou em 2012. Dessa forma, Lula deveria ajudar a fortalecer o partido no Estado? Ele disse que quer ajudar o PT a se reestruturar. Até o final do ano, Lula quer vir aqui mais uma vez para conversar com o partido. Disse que quer estar presente nesse processo. Espero que isso seja uma mudança de visão em relação ao PT de Pernambuco.

Como o senhor prevê o segundo mandato de Dilma? Acho que vamos ter mais dificuldades. Talvez até mais dificuldade. Isso até mais no Congresso. Mas eu acho que o Governo precisa ter uma visão mais ampla do que é governabilidade. Acho que a governabilidade não se faz somente no Congresso com os partidos que estão ali, com os deputados, com os senadores. Por exemplo, os governadores têm uma influência importante sobre as suas bancadas. Então, uma das coisas que a presidente deveria fazer era ter um canal permanente. Uma espécie de fórum com alguns governadores para discutir uma pauta de temas só do interesse deles. O Governo precisa ter um diálogo permanente com esse pessoal. Discutir a pauta do congresso que é de interesse deles. Isso não aconteceu.

Isso foi um erro do primeiro Governo Dilma de não estabelecer um diálogo permanente? Foi. Da mesma forma com os empresários. Teve muita coisa que era do interesse dos empresários e eles não se mobilizaram em nada. O Governo não manteve esses canais permanentemente funcionando. Tem que ampliar o conceito de governabilidade. Não pode haver governabilidade só dentro do Congresso Nacional, porque termina virando um toma-lá-da-cá, um fisiologismo, a chantagem e isso a população não quer mais. Se para aprovar um projeto toda vez tem que fazer uma concessão não republicana. Estão aí os problemas colocados. Então, eu acho que vai haver mais dificuldade. Mas o Governo primeiro precisa construir, na minha opinião, uma maioria mínima, sólida para aprovar os projetos. Não adianta ter uma maioria que não é exercida, que não tem lealdade, fidelidade. É melhor um grupo menor, leal e que defenda o Governo Federal. E abrir o canal com a oposição, tem que ter.

A eleição passou e não tem muito que se comemorar para o PT local. Como é que o senhor avalia a situação do partido no Estado? O PT vai precisar fazer uma avaliação. Nós não fizemos nenhuma avaliação porque entramos de imediato no segundo turno nacional. Para nós era a prioridade ganhar as eleições. Mas precisamos fazer uma avaliação. Primeiro da eleição em si. Onde é que a gente acertou, onde é que a gente errou. Se as estratégias que nós definimos foram corretas ou não. Ou o que não definimos e deveríamos ter definido. Essa é uma primeira questão. A outra é uma avaliação mais profunda da situação do partido. A gente queira ou não. Apesar da vitória de Dilma, o partido saiu menor do que entrou. Eu acho que essa eleição mostrou um efeito tardio da crise a que nós vínhamos tendo desde 2008. Precisamos buscar uma postura de partido. Isso implica em discutir vários casos que aconteceram nessa eleição, no diz respeito à decisão de não haver apoio de petistas à nossa chapa completa.

A aliança com o PTB foi acertada, pois vocês terminaram não elegendo ninguém enquanto eles elegeram quatro deputados federais? Acho que foi correta. Nós não elegemos ninguém porque não estabelecemos uma estratégia. Se o PT tivesse tomado a decisão de não lançar tantos candidatos a deputado federal e concentrar em alguns, nós teríamos elegido um ou dois parlamentares. Segundo, o nossos candidatos todos eles têm presença na Região Metropolitana e nós não estávamos preparados para enfrentar o rolo compressor que foi na RMR. O PTB elegeu mais gente exatamente porque muitos deles ou a maioria não dependiam do voto da Região Metropolitana. Tinham bases no Interior onde Armando Monteiro Neto foi bem, João Paulo não foi mal e Dilma foi bem. E onde não houve esse tsunami que aconteceu aqui. Então, eu acho que a aliança foi correta. O caminho que foi dado à campanha, o roteiro, a tática eleitoral foi boa. O problema não é isso. Eu acho que no PT o problema é o PT. Eu acho que o PT tem que se rediscutir.

Nesse sentido de reformulação, o senhor é um daqueles petistas que defenderão uma candidatura própria em 2018? Essa questão de candidatura própria ou não, depende muito da conjuntura política. Acho que dizer agora que nós vamos ter candidato não sei se dá. Vamos ter que avaliar os cenários nacional, estadual, o próprio municipal. Antes disso, precisamos buscar uma reaproximação com os movimentos sociais aqui no Estado. O PT está muito longe da sua base social. Você vê que as mobilizações que aconteceram, no final da campanha, têm uma grande parcela que veio para a campanha, mas está longe do PT faz tempo. O PT tem que refazer esse caminho. Vamos ter que analisar naquele momento se é melhor a gente apostar num nome já consolidado ou numa novidade. Tem que estar aberto para tudo isso.

Passado todo imbróglio, como o senhor vê a relação com o PSB. Sempre foram aliados. Acha que é possível voltar a ser? O PSB tem sido o nosso aliado ao longo do tempo. Desde 1989 que a gente tem marchado junto. O PSB tem uma trajetória de esquerda. Acho que nessa eleição eles comentaram um equívoco que foi sair desse alinhamento numa visão mais popular, mais de esquerda, especialmente no segundo turno, porque o PSB já teve candidatos outras vezes. Garotinho foi candidato, mas no segundo turno a gente se uniu. Dessa vez quando os dois projetos se enfrentaram, eles se alinharam com o PSDB. Mas eu não creio que isso signifique que o PSB vai fazer oposição num bloco com esse pessoal. As manifestações que eu vi até agora têm sido mais de ter uma posição independente, autônoma. Lá no Senado vários senadores já declararam que vão caminhar com o Governo. Aqui tudo vai depender de como eles vão se colocar nacionalmente. Se eles tiverem conosco, apoiando o Governo, se abre um cenário para se construir uma relação política. Agora, se isso não acontecer, as relações serão meramente institucionais.

Como deverá se o comportamento da bancada do PT nas esferas municipais, estaduais e federais? Na Câmara do Recife, eu não sei a posição. Eu acho que o PT foi colocado nas eleições de 2012 para desempenhar o papel de oposição. Eles deveriam desempenhar o papel de oposição. Todo governo precisa de oposição. A oposição necessariamente não é oposição radical, obstinada, pode ser propositiva. E da mesma forma em relação ao Governo Estadual. Não fomos nós que rompemos. O PSB rompeu conosco e não temos outro caminho a não ser de estar na oposição. Mas também com esse caráter. Uma oposição que não crie dificuldades para as parcerias com o Governo Federal, que exerça a função de fiscalizar o executivo, de apresentar propostas, projetos, ideias.

Nos bastidores, alguns petistas avaliam que o problema do PT em relação à unidade deve-se ao fato de ter muitas lideranças. O senhor concorda com isso? Não concordo. Ao contrário. Acho que o PT está precisando de lideranças. Novas lideranças. Um partido que precisa urgentemente renovar seus quadros. Trazer novas pessoas para ocupar sua direção, disputar eleições. Então, o problema não é de ter muitas pessoas com certa projeção, uma certa liderança. Precisamos renovar essas lideranças. Acho que também temos que procurar pontos de unidade que pode e que deve acontecer em relação a essas lideranças. Nós entramos numa disputa tão pesada depois de 2008 para controle do partido, para controle da prefeitura e no final das coisas ninguém venceu nesse cabo de guerra. Para nós é uma questão de sobrevivência a unidade do partido e, ao mesmo tempo, construir uma postura de partido para poder ocupar espaço no Estado.

Como devem ser tratados aqueles petistas que são mais próximos do PSB? Eu acho que o partido deve trabalhar em cima de coisas objetivas. Agora nessa eleição quem de fato fez campanha para a nossa chapa majoritária? Quem fez campanha para outros candidatos? Quem de fato abraçou a campanha de Dilma? Quem não fez campanha para ninguém do partido. Tem que ser objetivamente em cima dessas coisas, em cima de denúncias que venham a ser feitas. Nós temos prefeitos que não fizeram nem campanha para Dilma. Quer dizer, pessoas que têm mandato do PT e nem campanha para Dilma fizeram. Nós vamos ter que estabelecer um critério e em cima desse critério trabalhar, discutir.

Num caso mais radical, o senhor defende até a saída? Se o camarada não votou em Dilma, ele não é mais parte do projeto do PT. É melhor que ele saia. Ele próprio tome a iniciativa de sair. O partido tem que chegar a algumas pessoas e dizer: ‘Olha ninguém vai tomar seu mandato, não vamos entrar na Justiça, não vamos lhe prejudicar’. Esse caminho tem que ser feito, porque se não deixa de ser partido.

Fonte: Por Anderson Bandeira, da Folha de Pernambuco.]]>

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