Empregos Saúde

Trabalho noturno desequilibra a saúde

"Até gosto desse turno, que é sossegado", diz o vigilante José Ferreira de Morais. (Igo Bione/JC Imagem) “Até gosto desse turno, que é sossegado”, diz o vigilante José Ferreira de Morais. (Igo Bione/JC Imagem)[/caption]

No horário em que muita gente já tem batido o ponto para se desligar da labuta, uma leva imensa de pessoas começa a encarar o batente quando o relógio marca as primeiras horas da noite. São os chamados trabalhadores noturnos, que abarcam um universo de aproximadamente 15 milhões de indivíduos, segundo estimativas do Instituto do Sono em São Paulo, com dados do Ministério do Trabalho. Para organizar a rotina diante das necessidades profissionais, eles abrem mão de boas noites de sono e se tornam propensos a vivenciar problemas de saúde e mudar a vida social por causa da inversão do ciclo natural vigília-sono.

“Fomos fisiologicamente programados para permanecermos ocupados com atividades durante o dia e descansarmos à noite. Quando esse ritmo não é estabelecido, algumas pessoas até conseguem compensar ao longo da semana, mas outras têm dificuldade”, explica o médico Fernando Lucena, membro da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt). O depoimento dele reforça que, enquanto alguns indivíduos não se adaptam a esse turno porque não conseguem ter um sono reparador à luz do dia, outros não sentem impactos negativos por exercer funções profissionais na madrugada.

Certamente por contar com um organismo que se adapta bem à mudança de turno, o vigilante José Ferreira de Morais, 55 anos, relata que nunca teve sérios problemas de saúde por iniciar o ofício à noite e só largar depois dos primeiros raios de sol. “Mas não foi fácil se acostumar com esse horário. Senti cansaço nos seis primeiros meses de trabalho. Depois, até passei a gostar desse turno, que é sossegado”, conta o vigia, que já está há mais de 20 anos nessa função. Ele tem como aliado um rádio de pilha, que o mantém em alerta no serviço. “É graças a ele que o silêncio da noite não me deixa morgado”, diz José.

Realmente, há trabalhadores noturnos que, como ele, não se queixam de problemas decorrentes do expediente. “É bem verdade que há pessoas que se sentem razoavelmente bem trabalhando à noite. Entretanto, elas geralmente não percebem que alguns sintomas que desenvolvem são sabidamente associados ao horário de trabalho”, diz a professora Claudia Moreno, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Membro da Working Time Society (entidade que estuda distúrbios ligados ao horário de trabalho), Claudia ressalta que muitos desses trabalhadores têm risco maior de úlcera, gastrite e hipertensão, mas não conseguem estabelecer relação entre essas condições e o ofício à noite. E ela explica o motivo: “São problemas que podem acontecer com qualquer indivíduo, e não só com quem tem ocupações noturnas”.

Os transtornos que a população logo associa à labuta são aqueles relacionados à privação e má qualidade do sono, como fadiga ao longo do dia e sonolência. “Apenas essas queixas, quando constantes e nunca cuidadas, podem ser suficientes para uma exposição a riscos que favorecem algum acidente de trabalho”, salienta Fernando Lucena. Para ele, outro entrave dessa questão é que, no processo de contratação ou mudança de turno, as empresas não consideram particularidades individuais dos trabalhadores de resiliência – capacidade de lidar com problemas sem o desenvolvimento de perturbações psicoemocionais.

Fonte: Por Cinthya Leite, do JC Online.

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